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foto Núcleo Bartolomeu de Depoimentos


O NOVO ELEMENTO DO HIP HOP
Por Luciana Mattiussi

Misturar teatro e hip hop parece uma idéia ousada? Para muitos sim, mas foi justamente isso que fizeram os fundadores do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, que hoje já tem 10 anos. A grande responsável pela fórmula é a atriz, diretora e figurinista Cláudia Schapira. "Ela já tinha o projeto do Bartolomeu, uma adaptação do conto Bartefly, o Escrituário, do Herman Melville. Ela queria falar do Bartolomeu, sobre dois pontos de vista. Um que todos os personagens tinham que ser femininas e o outro que a linguagem utilizada seria o hip hop, a cultura de rua", conta Eugênio Lima, DJ, coreógrafo, ator e fundador do núcleo. 

Com livre inspiração no conto de Melville, a primeira peça foi Bartolomeu, O que Será que Nele Deu?, dirigida por Georgette Fadel. Também participaram da montagem Luaa Gabanini, Paula Picarelli, Roberta Estrela D'Alva, e Lavínia Pannunzio. Desta formação original, os artistas que permaneceram no grupo, além de Eugênio e Cláudia, foram a Luaa e a Roberta. "Depois do Bartolomeu, nós quatro acreditamos que seria necessário um aprofundamento desta linguagem, que aquilo que a gente tinha feito era só um primeiro momento e que a gente iria apostar nesta premissa, que é o teatro hip hop", comenta Eugênio.

Mas foi na segunda peça do grupo, Acordei que Sonhava, que esta nova linguagem se formalizou. Dirigido por Cláudia, o espetáculo foi baseado em A Vida É Sonho, de Calderón de la Barca. Paralelamente, o grupo lançou o projeto Urgência nas Ruas, que eram obras-manifestos em forma de intervenções pelas vias de São Paulo. "A linguagem se formaliza porque se estabelece a troca de funções. A Luaa se forma dj neste processo e eu que não era ator também faço esta passagem. A gente começa a inverter, ou pelo menos a ter um diálogo mais nítido entre as linguagens ", explica Lima.

Todo o processo de trabalho do grupo tem a colaboração de todos os membros. O dj escreve o texto, a atriz escolhe as músicas e todos fazem pesquisas. A maior importância deste processo de trabalho, segundo Luaa, é que ele permite o debate. “Ele cria espaço para desenvolver outros movimentos e para o debate de conceitos. Em nossos workshops, o integrante não fala apenas que tem uma idéia para o texto. Neles, também são criadas as imagens da peça, o figurino, o jeito de falar, a maneira de colocar e incluir a música”, diz a artista.

Núcleo Bartolomeu de Depoimentos

Por ser um grupo independente também não é fácil se manter no circuito e o grupo sobrevive principalmente graças ao Programa Municipal de Fomento ao Teatro. “Ele foi criado no governo da Marta (Suplicy), dentro do ressurgimento do teatro de grupo. É uma grande conquista, mas que dá conta de apenas um pedaço da situação”, opina Eugênio. “Precisamos completamente desta ajuda. Sem as leis, seria inviável continuar”, comenta Cláudia. “Mas temos de lembrar que a gente está aqui numa casa completamente privilegiada, que poucos grupos têm. Por isso, o que os governos estão fazendo não é o suficiente”, conclui Luaa.

Mas com perseverança eles têm conseguido sobreviver até mesmo fora do país.
Em fevereiro deste ano, o grupo se apresentou na França. “Como este é o ano da França no Brasil, fomos convidados para nos apresentar lá, por um grupo que trabalha com a idéia da mestiçagem. A diretora deles viu o Fátria Amada Brasil e achou que poderia ter um intercâmbio interessante. Em agosto, será e vez deles virem para cá para montarmos o espetáculo A Mestiçagem Começa Quando Acaba o Esquecimento”, explica Cláudia. “O título é para dar a idéia de que quando você começa a esquecer esta viagem de ida, da África para um país branco, você começa a se relacionar com o lugar onde você está e acaba aceitando a idéia de que você é mestiço. E uma proposição irônica”, completa Eugênio

Núcleo Bartolomeu de Depoimentos

O texto francês, inclusive, tem muito a ver com o novo projeto do Núcleo, que será uma ópera, ou melhor, hip hópera, com previsão de estréia para o ano que vem. “Em julho, começam os ensaios abertos da pesquisa do Orfeu, que dará base para a ópera. O que vamos apresentar para o público são os narradores possíveis, que será o anjo da história. Esta figura vai ser apresentada por todos os atores do Núcleo, cada um vai apresentar uma defesa e quem vai escolher as vozes que irão para o espetáculo é o público, por meio de votação. Também será uma maneira de fugir da nossa arbitrariedade, de trocar de papel com quem assiste”, finaliza a diretora

 

 
 
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