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O ONIPRESENTE SELTON MELLO E O FILME JEAN CHARLES

Por Henrique Carvalho

foto divulgação

Selton Mello é um ator que trabalha incessantemente. Engata um filme no outro, constrói e desconstrói personagens num ritmo frenético e, na contramão da tendência hollywoodiana, não é ator-fetiche deste ou daquele diretor mas de muitos. Hoje, o cinema brasileiro tem Selton Mello como um de seus expoentes. Ele é um criador-intérprete que segue firmemente no pantanoso e volátil caminho do cinema brasileiro não só como ator mas também como diretor no ótimo “Feliz Natal”.

Atualmente ele representa personagens distintos em três películas: “A mulher invisível” de Cláudio Torres; “A Erva do Rato” de Júlio Bressane; e “Jean Charles” de Henrique Goldman. Neste último, ele interpreta o brasileiro que foi assassinado por agentes da polícia inglesa na estação de metrô Stockwell. A polícia suspeitou naquele momento que Jean fosse terrorista islâmico e , sem hesitar, matou-o. Mas Jean apenas fazia parte do grupo social de imigrantes brasileiros que tentam vencer no Eldorado.

No primeiro mundo supõe-se que a criminalidade, a violência, a injustiça e a impunidade sejam assuntos mais comentados e discutidos do que propriamente reais. Assim, um brasileiro no acaso de sua vida não espera ser confundido com um terrorista numa estação em Londres, mas acha mais palpável ser vítima de uma bala perdida andando pela orla carioca. Esse é um raciocínio mais concreto para um brasileiro.

Jean Charles, em contraposição a essa linha de pensamento, foi vítima da sede por um bode expiatório. Tinha que haver um culpado para os atentados terroristas. Aqui temos um filme. Paira-se a pergunta: um dramalhão, um documentário, um semidocumentário?

“Jean Charles”, o filme, tem tintas documentais mas não é um documentário. O personagem retratado é um típico brasileiro: honesto mas que encontra seu “jeitinho para as coisas”, que às vezes estão na fronteira entre legalidade e ilegalidade. Uma espécie de pícaro reinventado, contemporâneo, o que faz com que a atuação de Selton seja inquestionável.

No limbo entre drama e comédia, Selton sempre encontra o centro gravitacional da personagem, o núcleo de uma personalidade que é mais do que um brasileiro mineiro que vive em Londres e que apadrinha a mudança de seus compatriotas e parentes brasileiros para a capital inglesa.

seltom mello

Os dissabores do filme repousam sobre algumas atuações um pouco sofríveis, de personagens que lá estão a fim de representar estereótipos que sustentam o fulcro do roteiro. Há Vanessa Giácomo numa atuação que soa como uma luva para ela. Há Luís Miranda que veste perfeitamente o personagem e há os outros atores que sendo não-atores constam dali para dar uma cor local, um aspecto de realismo que talvez fosse preterível.

Radiografando o personagem protagonista, o filme evidencia que Jean não era completamente bom, nem mau, mas um indivíduo que , como todos, tenta ser feliz numa selva de pedra.

 

 
 
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