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ROBERTO COELHO

O empresário conta a fórmula de sucesso por trás da marca Gola no Brasil

Por Camila Fernanda Giacomeli
Foto Divulgação

De quem você herdou a vocação para os negócios?
Nasci numa casa que sempre teve o DNA de negócios. Para se ter uma ideia, todos os nossas noites de Natal, tínhamos que marcar o encontro só as 21h, pois meu avô e tios estavam trabalhando nas lojas e acompanhando até o último minuto as vendas do melhor período do ano para o varejo. Meus tios também trabalhavam com meu avô até cada um poder seguir seu próprio caminho. Logo quando comecei a estagiar, senti que queria empreender. Não resumiria a vontade de apenas ter meu próprio negócio. Ia além. Queria ter uma empresa que gerasse empregos, criasse riqueza e desenvolvesse algum segmento pouco explorado.

Quais os projetos da Gola para o Brasil?
Para a Gola, temos um plano de expansão bastante agressivo para os próximos anos. Abrimos em dezembro de 2009 a primeira loja da Gola no Brasil na área fashion do Morumbi Shopping (SP). Neste dezembro (2010), abrimos a segunda loja no Shopping Leblon (RJ). Foi uma parceria com a Avec Nuance que já é uma operação consolidada no mercado carioca.
Para 2011, prevemos mais 4 lojas e a primeira franquia da marca no Brasil. Temos projetado fechar 2013 com 14 lojas no Brasil. A aceitação da Gola no Brasil está muito boa e sempre que revemos nosso plano, aumentamos os números.

E sua história?
A Gola nasceu em 1905 em Leicester (Inglaterra). Ela foi fundada para fabricar botas para rugby. Na época, não existiam fábricas deste tipo de calçado e a Gola, como a primeira do mundo, logo ganhou fama no Reino Unido e, em pouco tempo, começou a fazer desde as botas dos soldados que foram para as Guerras Mundiais até sapatilhas de corrida, tênis para squash, boxe etc. Não tem uma criança que tenha nascido da Grã-Bretanha que não tenha tido um par dos tênis Gola. Nos anos 60, começou-se a pensar numa linha mais clássica com DNA de esporte, mas com um estilo mais fashion. Cria-se, então, a Gola Classics que, até hoje, é um dos grandes sucessos na Europa.
Como marca centenária, a Gola já foi usada por diversas personalidades, desde Churchill e o Príncipe Charles até Madonna, Jack Johnson, Brad Pitt, entre outros.

Uma curiosidade da Gola?
Vou te contar que com quase 106 anos de história fica difícil escolher apenas uma curiosidade. Mas acho que o mais diferente é que a Gola fundou o conceito de “Trainers”. “Trainers” significa um tênis que foi feito literalmente para a prática de esportes. Não para um esporte específico, mas para o geral: de academia ao futebol. Hoje, além dos Trainers tradicionais, a Gola também fundou o conceito (hoje copiado por várias marcas) de Classic Trainers que nada mais é que uma releitura dos famosos “Trainers”, mas não para esportes, e sim, para o dia a dia.

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Quais as vantagens em ser um representante de uma marca internacional como a Gola?
Como todo negócio, existem vantagens e desvantagem, e posso dizer que ambas vêm na mesma proporção.
A maior vantagem delas é poder contar com a expertise de uma empresa com 105 anos de existência e que todo e qualquer procedimento a ser tomado já foi avaliado e testado por vários anos antes de ser implementado. Isso garante uma probabilidade de acerto muito grande. Temos uma equipe de desenvolvimento de produtos incrível, histórias centenárias para contar e uma marca que está presente em todos continentes há, pelo menos, 20 anos!

Existe apoio da matriz? Como é definido o que deve ser, neste caso, bom para o Brasil?
A matriz da Gola está constantemente revendo nossa estratégia de crescimento, política de preços, distribuição e marketing. Se tiver algo que esteja bom, eles apontam e exportam para os outros países. Se estiver mal, eles nos aconselham quais procedimentos tomar. Quem define, em primeira instância, o que deve ser seguido são as diretrizes que já foram nos passadas. Em segundo, eu mesmo tenho certa autonomia. Desde que não se sobreponha a algumas políticas básicas de posicionamento e comunicação mundiais.

Onde a marca está presente no mundo hoje com flagships?
Temos mais de 30 flagships espalhadas entre o Reino Unido, Estados Unidos, China, Japão, Austrália, Argentina e Brasil. Todas com o novo conceito da Gola que foi desenvolvido no começo desta década. Para 2011 e 2012, mais lojas virão na França, Itália, Austrália, Portugal, Holanda, Alemanha, México, Chile e Dinamarca.

Quais foram as maiores dificuldades enfrentadas na chegada da marca no país?
A falta de conhecimento dos brasileiros para algumas marcas europeias. Até pouco tempo, os brasileiros estavam de olho apenas no mercado americano. Todas as marcas, produtos e serviços de lá eram bons e os europeus ficavam em segundo plano. Não digo pela qualidade e tradição, mas sim pela escala de desejo.
Hoje muita coisa mudou. Produtos americanos cada dia que passa estão mais em segundo plano e os europeus e, principalmente, os brasileiros estão ganhando destaque.
Veja quantas operações brasileiras de moda entraram nos shopping brasileiros nos últimos 4 anos! Fico encantado em ver o desenvolvimento do Brasil neste segmento de moda.

O que levou a Gola a se instalar no Morumbi Shopping e não nos principais endereços de prestígio, como Rua Oscar Freire e Shopping Iguatemi?
Como marca prioritariamente masculina, a Gola precisava entrar num local de alto fluxo de pessoas com poder aquisitivo alto. Nosso grande marketing fica no ponto de venda. Produto com design e qualidades incríveis, preço justo e tudo numa loja de encantar qualquer um. Não podíamos investir numa loja para poucos verem e passarem na porta – o que infelizmente é o caso de lojas de rua, como a Oscar Freire.
Vou ser sincero, qualquer marca internacional quer estar no Iguatemi, e a Gola não é diferente. Mas, infelizmente, o Shopping Iguatemi tem poucas lojas disponíveis e com tamanho reduzido. Precisávamos ter a primeira loja com, no mínimo, 120 metros quadrados, algo com o tamanho suficiente para contarmos toda nossa história e encantar as pessoas.
O Morumbi tinha esta loja e no melhor corredor do shopping, no coração da ala fashion, e fez um convite irresistível para nós.
Em 2011, estaremos no Shopping Iguatemi e outro excelente shopping de luxo em São Paulo. Às vezes, é melhor esperar para as coisas acontecerem. Vem sendo assim desde 1905 quando a Gola foi fundada (risos).

A marca está presente em multimarcas consideradas Premium. Esta será sua única estratégia para este segmento?
Não. Esta foi nossa estratégia de penetração no mercado brasileiro no primeiro momento.
Desenvolvemos uma nova linha de produtos e vamos dividir em duas linhas. A Gola Classics e a Gola Heritage.
A Heritage continuará focada nas multimarcas de luxo e nas nossas flagships. Já a Classics abriremos para uma maior quantidade de lojas, mas será difícil encontrar a Gola em todas as multimarcas do Brasil já que temos uma política de distribuição muito seleta e exclusiva.
Nosso custo de produção é alto e, consequentemente, poucas lojas conseguem ter força e foco para trabalhar a Gola da forma correta.

Com lojas em São Paulo e Rio de Janeiro, quais são as capitais brasileiras que a marca faz questão de estar presente?
Com a abertura do mercado consumidor brasileiro que ocorreu na última década, nosso leque de cidades-alvo aumentou. Uma marca de prestigio tem que estar presente em Brasília, Curitiba, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife. Temos uma concentração muito grande de cidades do interior de São Paulo que tem uma renda per capita maior que muitas capitais brasileiras, e isto é um indicador de onde a marca deve estar presente.

Qual consumidor a marca busca e o que é feito para atraí-lo?
Buscamos um consumidor com estilo de vida jovem e que viaja o mundo, vai a bares e restaurantes legais e que gosta de estar com amigos. Não resumimos nosso consumidor pela faixa etária e sim pelo estilo de vida, como quais lugares frequenta e com quem ele sai. Para isto, comunicamos a Gola em certas faculdades, temos uma parceria com a marca de carros inglesa MINI Cooper, além de alguns restaurantes e bares. Queremos estar onde nosso cliente está. Isto é muito mais importante que qualquer outro tipo de divulgação. Em 2010, fizemos um campeonato de kart mensal com alguns embaixadores da Gola e esta ação foi muito forte para nosso branding.

A marca atingiu o resultado esperado? Como isso é avaliado?
Sim! Basta olharmos nosso crescimento de lojas, multimarcas e quantas pessoas estão usando Gola num restaurante, num bar ou balada todos os dias. Nosso termômetro é esse! Fiquei contente com um amigo que foi passar o réveillon em Jose Ignácio (Punta del Este – Uruguai) e voltou me dizendo que deveria abrir uma loja da Gola lá! Era febre! Todos usando Gola durante o dia e a noite!

Você tem planos de trazer outra marca para o Brasil?
Sim! Estou em conversas avançadas com três marcas de moda além de uma operação de serviços que é extremamente desejada pelos brasileiros que viajam pelo mundo. Quando você entra neste segmento e tem sucesso, as marcas e operações ficam de olho em você. Não vou parar tão cedo.

A cada dia, desembarcam por aqui nomes importantes de grifes consagradas. Quem é seu principal concorrente?
Posso falar tranquilamente que não tenho um concorrente forte estabelecido por aqui. Nossos concorrentes mundiais são marcas como Abercrombie e Hollister. Ambas as marcas já são vendidas no Brasil pela Mandi, que também vende Gola, mas ambas não têm planos de instalar lojas fixas no Brasil.
Um ponto que conta a nosso favor é que a Gola é uma marca de tênis que desenvolveu a linha de roupas ao longo dos anos e não o inverso. Isso restringe ainda mais o leque de concorrentes. Posso dizer, sem exageros, que a Gola é uma marca única no mundo! Quantas marcas sobreviveram as duas Grandes Guerras Mundiais?!

Você é um empresário realizado?
Posso dizer que estou em busca desta realização e, a cada dia que passa, estou mais próximo dela. O dia que puder fazer com que minha equipe seja tão boa que ande por si só, estarei realizado. Como disse anteriormente, quero desenvolver um mercado (ou parte dele) bem como desenvolver as pessoas que acreditam no meu sonho.

 
 
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