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PRETINHO BÁSICO
Por Sergio Bruno Tórtora 

Tenho uma amiga que só veste preto. Ela alega que o pretinho não faz feio em nenhuma ocasião. Sempre está elegante, além de parecer mais magra, lógico.

“Você pode produzir carros de qualquer cor desde que seja preto.” Com o objetivo de produzir um automóvel acessível a todos os americanos, Henry Ford escolheu a cor preta pelo seu baixo custo.Com o tempo, a Ford foi perdendo seu reinado para outras marcas que ofereciam modelos mais modernos, potentes e coloridos. O consumidor começou a querer se diferenciar dos demais e as cores foram uma das formas encontradas. Nessa época, elas eram bem discretas e sem brilho.

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Acredito que, no mundo do automóvel, as cores vivas tiveram seu apogeu na década de 70. Quem não lembra, ou viu , em alguma foto de seus pais, uma Brasília azul-calcinha, um Corcel amarelo-ouro ou um Fusca laranja ou verde-limão?
O mundo automobilístico nunca foi tão colorido como naquela época. Popularizavam-se também as cores metálicas para os modelos mais luxuosos, o dourado, o azul e o verde metálico. Nos últimos tempos, as cores passaram a ser simbólicas. Graças à Ferrari, o vermelho passou a ser sinônimo de carro esportivo, do Stilo Shumacher e do Abarth. Do Corsa e o Meriva SS ao Honda Civic SI, todos oferecem o vermelho como a cor principal. Em 2004, a Ford elegeu o amarelo para lançar o seu Ecosport 4X4 e, logo em seguida, a Mitsubishi TR4 e o L200, além do Troller, lançaram a cor amarela para lembrar o consumidor de que eles também eram 4X4.

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Após o prefeito de São Paulo Paulo Maluf decretar a cor branca para a frota de táxis, entre outras, por ser uma pintura de baixo custo, a ausência de cor passou a significar carro de trabalho. Frotas de furgões e vans em geral são, na maioria, na cor branca com o adesivo da empresa. Na cinzenta arquitetura européia, as cores vibrantes ainda resistem. A preferência é para os carros urbanos ou city cars, como eles classificam. Prova disso é o que vemos chegar por aqui, o Smart, o Super Mini e o Picanto. O novo Ford Ka europeu, feito na mesma base do 500 da Fiat, além de oferecer cores vibrantes oferece também diversas aplicações adesivas, que lembram tatuagens – moda entre os jovens herdeiros da geração hippie. Na Europa, ainda, a Lancia, marca da Fiat quase desconhecida por aqui, faz muito uso do saia-e-blusa em seus modelos.

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Conhecemos este recurso aqui no Brasil através da Kombi, que recentemente lançou uma série comemorativa de 50 anos com a parte superior no branco e a inferior no vermelho.
Aqui a conversa é outra. O brasileiro, por ser um povo que frequenta diversos lugares no seu dia-a-dia, do luxo ao lixo, parece preferir usar um pretinho básico, que não compromete e fica sempre elegante. No Brasil, a maior produção de carros particulares, sem dúvida alguma, é feita nas cores preta e prata. Por mais básico e simples que seu carro seja, a cor preta sempre dá um ar de luxo e sobriedade, remetendo à lembrança das limusines presidenciais, aos Rolls-Royce com chofer usando quepe.
O mais curioso disso tudo é que, ao mesmo tempo em que o consumidor procura ter um modelo diferente daquele do seu amigo ou vizinho, quando o assunto é cor, ninguém se arrisca. Preferindo o preto ou cinza-prata.

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Curiosidades à parte, meu voto fica para o retorno das cores. De todas as cores… Hoje, graças à computação gráfica conseguimos obter uma quantidade infinita de cores. A Pixar que o diga. Por que não usarmos isso para deixar nossas ruas mais alegres e coloridas?. Quem sabe não melhoraria o humor dos nossos – com razão – neuróticos motoristas urbanos? E é só imaginar a imagem coloridíssima que os quilométricos congestionamentos das sextas-feiras – às vezes mais extensos do que a largura de Portugal, que é de 200km – dariam.
Resta saber se estamos preparados para acordar e deparar na garagem com aquele carro lilás piscando para nós.Bip Bip ! E, como no caso da minha amiga, com carros pretos talvez o congestionamento parecesse mais "magro", mais "elegante"…

No estacionamento, na saída de uma festa, eu e um amigo goiano (passando uns dias em Sampa) estávamos retirando meu carro quando ele comentou comigo
– Uau! Aqui só tem carro chique!
Dei uma olhada nos carros com olhos profissionais e vi que não era bem assim.Havia vários carros populares, alguns com até mais de 10 anos de uso, mas percebi que ele não estava se referindo a modelo e nem a valores e sim à cor. A maioria era preto e alguns prata. Concordei com ele, afinal na festa não tinha muita gente bonita, mas todos estavam chiquérrimos.

 

*sergiobruno@terra.com.br

 

 
 
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