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FÉRIAS ONÍRICAS
Por Sergio Bruno Tórtora
Fotos Divulgação

O que mais Angelina gostava, durante as férias passadas no Guarujá, era o período logo após o almoço. Enquanto todos faziam a cesta, ela descia para tomar um sorvete. Adorava sentar na mureta do prédio, de frente para a avenida da praia, e ficar observando o movimento enquanto saboreava seu sorvete. Observar o mar, a praia, os meninos e seus carros maravilhosos era o seu prazer diário.

O Marcelo, filho da Dona Nena do quarto andar, não era muito bonito, mas dentro daquele Puma verde metálico e vidros verdes até que ficava charmoso. O logotipo do Puma, tanto das rodas como da frente do carro, parecia olhar para ela como se fosse devorá-la; e, nem que ela corresse muito, aquele carro com suas linhas sedutoras iria alcançá-la facilmente, independente para onde ela fosse.

O Puma era o máximo na época; para Angelina nem o SP2, que a Volks desenvolveu para o Brasil, nem os Maveriks e Dodges, com seus motores V8, tinham o charme de um Puma. Ele era um carro feito com a mecânica Volks e foi desenvolvido para uma revista nacional de automóveis; depois comercializado a um preço acessível ao bolso do brasileiro.

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Angelina também adorava apreciar os Bugues. Suas cores vivas, desenhos recheados de curvas e seus pneus musculosos eram bem alegres e dinâmicos. Havia um garoto que ela nunca conseguia ver o seu rosto de tão rápido que ele chegava e corria para a praia. Ele sempre estava acompanhado com uma garota diferente, mas todas tinham em comum os cabelos longos. Talvez pela razão de o Bugue não possuir teto, o garoto gostava de ver as madeixas das meninas voarem ao vento. Angelina até sentia uma sensação de liberdade e não via a hora de deixar seus cabelos muito longos para poder passear de Bugue.

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A Fiat, no último salão do automóvel, apresentou um projeto de carro elétrico que mais parece uma leitura moderna dos antigos Bugues. Atualmente acho que a BRM é uma das poucas marcas que ainda produzem este tipo de veículo. Uma pena, pois as cidades litorâneas deste país ficariam bem alegres com modelos desse tipo. Os turistas agradeceriam: chega de alugar carro popular para passear pelas praias brasileiras.

Mas o primeiro carro que Angelina se apaixonou foi mesmo a Rural Willys, que mais tarde se tornaria da Ford. A Ford gosta de modelos robustos e recentemente também adquiriu a Troller no Brasil. Angelina adorava, na Rural, a combinação das duas cores: achava o máximo as portas traseiras do porta-malas, que se abriam em duas partes. Era um charme! O Club da Mini, lançada no Brasil, seguiu esta tendência de duas cores e portas traseiras em duas partes. Na verdade a Rural foi um mestre para tantos modelos SUVs que hoje temos no mercado. Pena que nenhum deles herdou a simplicidade do avô. Hoje, se quisermos ter um SUV simples e básico, não vamos achar. Os SUVs viraram sinônimo de ostentação e poder.

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Angelina tinha certeza que seu marido teria uma Rural. Na adolescência, porém, em suas férias no Guarujá, viu nascerem muitos carros e se apaixonou por vários deles. Viu a chegada da Saveiro, que tinha capacidade para 500 Kg!. Nela os meninos carregavam de tudo, pranchas, caiaques, bicicletas e até os amigos. Era uma tendência da época: produzir picapes derivados dos compactos. Sucesso garantido até hoje, pois é um estilo de carro que alia trabalho e lazer. Nos EUA, na Austrália e em outros países também se produzem picapes derivados de carros médios e até grandes, como o Omega. No Brasil nem se cogita essa possibilidade.

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Apesar de tanta variedade no mercado de automóveis em nosso país, quando o brasileiro reclama que não encontra opções de compra, no fundo está com toda razão. Nosso mercado ainda apresenta várias lacunas; infelizmente as indústrias não querem ou temem investir em determinados segmentos. Hoje os modelos esportivos acessíveis sumiram do mercado. Cadê o Opel Tigra, o Fiat Coupê e o Miata? Por que as montadoras e os fabricantes de carros especiais desistiram deste filão? Parece que o foco agora é apenas os esportivos caríssimos ou mesmo os automóveis Off Road.

Angelina hoje mora sozinha, numa casa do bairro de Pompéia, em São Paulo. Nunca dirigiu e também não se casou, mas com certeza é uma das amantes dos automóveis elegantes, esportivos e alegres dos primórdios do mercado automobilístico brasileiro.

 

*sergiobruno@terra.com.br

 

 
 
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